numa corda suspensa
me suspendo de mim

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Que se dane, queria pensar. Que se dane, me forço a dizer. Que se dane isso que não sei dizer, que não sei escrever, mas que fica aqui, na ponta de mim. Que aperta meu coração quando entro no trem e vejo a cidade passando pela janela. Que me força a fechar os olhos pra eu não escorrer de mim mesma. Que se dane. Não vou gritar, mas também não vou calar. Só quero que se dane, que saia, que se vá, mas que não me leve, que me preserve, que me mantenha sã. Que se dane. Mas, no fim, eu é que me dano. Só espero que esse dano não seja permanente. Que se dane, murmuro encarando o reflexo no espelho do banheiro. E pego outro café. E caminho apressadamente no frio pensando que se dane que se dane eu me dano eu me dane que se dane que me dane que te danes que se dane.

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@Diane Arbus. Jack Dracula at a bar, New London, Conn. 1961.

Sempre que eu encontro alguém é tão você, sou eu – não sei onde acaba uma e começa outra.

Por que você te grito nesse silêncio. Por que te escrevo e me escrevo sem rimas e esqueço as vírgulas pra ver se esqueço também se me esqueço também se de repente amanheço com o peito leve. Me leve. Só quero ir mas me deixar nesse ano que me pesa. Só quero não ser se esse é o preço pra seguir em frente sem o coração em carne viva, a pele em chamas, os olhos ainda tão lustros.

Então eu sento e espero que isso passe. Deito e espero que isso não esteja comigo no dia seguinte. Acordo e espero que isso suma. Há meses que tento fingir que não arde, que não queima, que não me sucateia. Que a ansiedade dos olhos não é a mesma do peito. Que isso que está em mim, e que não sei nomear, vai passar.

E não passa nunca. De manhã de tarde de noite. É água pra todo lado. E não sai de mim. E rompe. E arde como sal nos olhos. E machuca como areia na pele. E não cicatriza. E não entendo como sigo ferindo ele, como sigo me cortando. E não entendo silêncio. Porque não silencio em mim. Quero me silenciar.

 

Abril

Te penso ainda porque estás em mim
Porque há dias em que acordo e te sinto
Sinto tuas mãos, teus seios, tuas costas
Sinto tua delicadeza, tua calma

Há essa nostalgia boa de tudo o que foi
Esse desatar de nós constante
E uma tentativa de não mais te machucar

Há esse silêncio pontuado por ruídos
Essa lembrança que aquece o peito
Esse peito ainda pela metade –
querendo ser o de antes, não o de agora

 

Notas

I

Atingi um ponto em que não me preocupo mais. Passei a barreira da prudência, da coerência. Vou indo. Quem se importa? E se alguém se importa, que tenho eu a ver com isso? Aceitei o que sou. Aceitei que não sei quem sou. E vou indo. E vou rindo. E vou mentindo. E vou me acudindo.

II

Não quero sentir que estou pisando em ovos. Não quero pensar antes de dizer. Não quero ponderar antes de escrever. Não quero mais esse sofrimento que é planejar o próximo passo. Odeio planejamentos internos. Só os externos é que me interessam. No que diz respeito a mim, só quero ser fluxo, só sei ser isto.

III

De repente uma cólera apática, um estar-não-estar, uma indiferença. De repente o estômago contraído e dias que não me dão ânimo para colori-los. De repente não me quero, não quero ninguém, quero só o silêncio (sem ruídos da noite, sem barulhos humanos), quero estar só comigo mesma e não me deixar afundar.

Primeira pessoa do singular

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Diane Arbus | A Puerto Rican Housewife, NYC

É o impossível que me atrai. É o indiferente que me fisga. Sou toda caos. Quando olho pra trás, percebo que sempre fui caos — um caos emocional e profundo. E saber que isso faz parte de mim, e que provavelmente sempre fará, me delicia e me assusta ao mesmo tempo.

Estou constantemente desafiando-me, embora de forma inconsciente. Quero rasgar a pele para me sentir, para sentir que estou viva. Preciso me afogar para ter certeza de que respiro, de que tenho pulmões, um corpo de carne, um coração que pode parar de bater a qualquer momento.

Não posso ser apatia. Não posso ser constância. Há qualquer coisa nisso que fere a minha existência. Preciso estar no limite de mim mesma para fazer jus à vida que está em mim. Qualquer outro jeito de estar no mundo seria interpretado como mera sobrevivência.

Ao mesmo tempo, há o desejo constante de calmaria. De paz. Que paz é essa que meu caos anseia? Que paz é essa que posso ter quando me coloco o tempo todo no olho do furacão? Crio um dualismo em mim mesma.

Sou toda realidade inventada. Nada posso contar aos outros, porque a minha verdade não é a mesma das pessoas. Porque o que vivo não é o que percebem de mim, não é o que vivem comigo. Estou além de mim mesma. Mas não sou uma parede intransponível. Ao contrário: basta que se peça com carinho para que eu deixe atravessar-me. Mas é isso: é incompreensível o que se vê. E qualquer tentativa de entendimento alimenta a minha agonia de não saber me explicar. Porque não há nada para ser explicado, só sentido.

“Chocar-se contra o mistério é a única maneira de o descobrir” Simone de Beauvoir