Tudo virou você. E histórias que eu invento, e finjo pra mim mesma que aconteceram.
Tudo virou você em mim. E esse sentimento que continuo alimentando uma vez por ano, pra que ele nunca morra.
Tudo virou você no fundo de mim. E essa agonia que continuo cozinhando em banho maria.
Tudo virou. E continua virando. Não sei até que ponto consigo me aguentar em mim.

Pelo menos agora afasto a loucura. A que custo, não sei. Mas está longe – ou está enterrada em mim, talvez nas entranhas. Se não está longe, pelo menos não consigo saber. E não saber me alivia.

Antes eu vivia cheia de tudo. Dela, de você. De um presente que eu costurava minuciosamente sem perceber. Um presente inventado, que também ia dilacerando meu peito na medida em que não se materializava. E consumia minhas noites – todas elas. E consumia minhas manhãs de trabalho – sempre irritada. E consumia meu fígado – sempre banhado com café preto, sem açúcar. Eu era aquilo que era enquanto esperava ser alguma coisa. E, no fundo, nunca soube muito bem ser em mim mesma. Não que agora eu saiba. Sei cada vez menos. O lado bom disso é que vou me tornando o que sempre quis: nada.

 

Quem é você. Que não é mais. Que não aparece mais no meu peito. Quem é você. Que já foi ar. Que já foi mar. Que já foi caos e paz ao mesmo tempo. Quem é.

 

Como foi que nos perdemos? Rebeldia. Ousadia. Taquicardia.
Como foi que esquecemos? De seguir. De partir. De ir.
Como foi que deixamos? A rotina. A sina. A nicotina.

Como foi que transformamos? Os olhos. A boa. O coração.

Pra não dizer que eu esqueci

Fico lembrando dela: uma quase mulher, mas nunca uma mulher por inteira. Fico lembrando dela e de todas aquelas lágrimas que rolavam sem pausa durante as manhãs de sábado. (Quanto sofrimento em um final de semana.) Fico lembrando dela e de como se sentia perdida. Era tão pequena, tão frágil, tão totalmente Tristessa que nunca conseguia admitir pra si mesma o personagem que havia criado. 
Sentia vontade de morrer nas sextas, mas bebia. Bebia umas cinco cervejas naquele bar, no meio daquela avenida. Bebia tanto a ponto de confundir a sinaleira com a lua. E esperava que ele passasse – ele, que nunca passou; ele, que nunca imaginou a agonia da menina; ele, uma definição de platonismo no meio de um caos costurado. 
Sentia vontade de nascer nas segundas, mas continuava morrendo. E todo final de tarde era a confirmação de mais uma noite de insônia. E toda insônia era uma negação dos fatos. Chorava pra dormir porque pensava que só o cansaço emocional a faria dormir. Só nunca imaginou que choraria por anos. E que o pranto que cessava às 6h da manhã não fazia cessar a ânsia de se ver vazia de dor. 
E doía. Ah, como doía aquele sentimento platônico. Era tão real no seu platonismo, tão letalmente constante que por vezes quis quebrar o espelho com os próprios punhos só pra que outra dor pudesse ser mais forte e distrair a anterior. Mas nunca quebrou. Nunca fez coisa alguma a não ser sofrer pra dentro e escrever pra fora – sempre textos em metáforas. 
Não sei quando Tristessa morreu. Demorou tanto pra que a dor acalmasse, pra que o platônico sucumbisse e desse espaço pro real. Demorou tanto para que parasse de esperar na esquina, no bar, na cama. Demorou. E mesmo hoje ainda não se sabe se Tristessa morreu completamente – ou se continua vivendo nos lampejos de sonhos com um passado que nunca existiu.
“Estás aí, Senhor estrela? – Suave é o chuviscar que perturba minha calma.” – Kerouac, Tristessa

Sem ponto final

Esses dias eu sonhei com você. E no sonho você casava no mesmo dia que eu. E era só isso, mas era muita coisa dentro de mim. E eu não saberia te dizer como, nem por que, mas você continuava lá: uma ferida aberta e permanente que os anos não apagam. Pensei em te mandar um alô, um sinal de fumaça ou um daqueles e-mails clássicos perguntando o que é que se faz quando não se tem vontade de fazer qualquer coisa. Pensei em perguntar se você tem planos de casar. Mas respirei meu silêncio e continuei com a minha rotina. 
Às vezes eu sinto falta de ser pra fora. Aquela coisa de falar-e-falar-e-falar-e-dexiar-ser. Mas, em algum ponto dos últimos oito anos, alguém me empurrou pra dentro. E ali eu fiquei: deitada quentinha dentro de mim mesma.