Notes from the couch XLI

Eu achava que sempre se podia ir mais fundo quando se começava. E nunca me foi difícil começar. Começar. Essa coisa que, embora muitas pessoas ignorem, significa mais do que uma página em branco: significa que algo foi rompido há pouco. Mas sempre foi difícil sair do fundo. Porque depois do ápice, depois de se continuar indo quando se começa, é quase sempre difícil voltar à realidade estável e estática.

Eu sempre gostei do êxtase, do extremo, dos olhos brilhando, da loucura. Sempre gostei de me sentir fora de mim, de não me pertencer. De dançar até não aguentar. De correr mesmo sabendo que nunca iria chegar a lugar algum. De gritar até não ter mais voz. E chegar ao fundo, no fundo mesmo, no fim é isso: é essa agonia dissonante que a gente só percebe depois. Agora coleciono várias. Mas a cada noite, a cada dia, a cada começo lembro do que significa realmente ir até o fundo.

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Um resumo de nós II

Fico ansiosa sem motivo – meu estômago se contrai, e eu perco a fome. Mas é uma ansiedade boa. E de repente não penso mais o que é, o que vai ser, o que foi. Pela primeira vez encaro o tempo como ele é: esse presente constante, que me leva, que nunca se deixa ser levado. Apenas sinto. Aspiro o ar da manhã, o cheiro novo no travesseiro, esses dias ensolarados. Trago essa paz misturada com uma nova felicidade. Tudo tem sido felicidade: todos os grandes pedaços, agora tão acomodados e conhecidos no peito, e esses pedacinhos que vou juntando pela casa durante a semana e colando dentro de mim.

Não penso em denominações. Nunca pensei, afinal. E agora é que não devo pensar mesmo. É apenas o fluxo, essa coisa que eu chamo de vida. Sem passado nem futuro, apenas essas horas, esses dias, esse mês, esse ano. Apenas o que sou, o que estou sendo; nunca o que fui ou o que serei. Finalmente, depois de tanto tempo, apenas deixo ser. E não estou angustiada sobre os próximos meses, as próximas rugas, os próximos passos. Aceito e sigo. Sigo leve, o coração em paz, a casa em ordem, menos peso no corpo.

Um resumo de nós

Parece que sim, que está sendo. Que respiro, que aspiro, que sinto cheiro de vida, que vivo. Sim, está, estamos: o novo cheiro que impregna o quarto, a mistura dos corpos quentes amanhecidos, a meia luz que entra pela janela junto com o som dos pedreiros que chegam na obra. Não há espaço para pensar porque há o sentir. Sentir. Ir. Sempre em frente. Todas as fendas tapadas, toda a ansiedade diluída na textura dos braços, das costas, da barriga. Sim, é vida – ainda que o sono seja pouco, ainda que a fome de comida inexista, ainda que.

Parece que todas as vírgulas foram cortadas. O fluxo segue sem pausa, sem pontuação, leve e sem cor. E a boca seca é o ápice da paz, da satisfação, do esgotamento físico. Te quero, nos quero, me quero. Quero essa inconstância nesses dias cheios e constantes. Quero me esvaziar nessas noites que viram manhãs – e voltar a me encher ao longo do dia só para poder me esvaziar de novo e de novo. Sim, é isso – e se não for, também é. Sinto e deixo sentir. Sinto e me deixo sentir: pra fora, pra dentro; em todas as direções.

Depois de um dia cheio

Tô falando sério que é só às vezes que dói. Mas quando dói, vem lá debaixo, de dentro, do fundo mesmo, e vai subindo como a maré; e põe pra fora o que nem deveria estar lá. É verdade que sinto, que pressinto, que minto. Que te quero bem. Que me quero – se não bem, pelo menos me quero. E que às vezes desaprendo a sair no horário, passar café, fechar a casa antes de dormir, não te deixar ter pesadelos. Não minto quando falo olhando nos olhos, quando encaro esse preto-fundo, quando falo baixo querendo não falar, quando o corpo se cansa e eu continuo te dizendo “amanhã eu acordo às 7h, e dessa vez é sério”.

A saudade já é quase pó. E quem diria! O que aquelas pessoas diriam se nos vissem agora: as vozes tão compassadas, os corpos tão juntos – tão vivos, tão amados, tão quentes! -, essa casa que a gente fez ser nossa, essa paz no meio do caos. E mesmo quando grito, quando brigo, quando quero me calar, mesmo no meio da minha instabilidade, há paz. Nunca foi tanto.

Notes from the couch XL

Paro no meio do caminho até o trabalho e peço um café. Não posso beber café, mas o copo de plástico é de um transparente tão bonito, quase apaixonante. E é pouco líquido, penso. Me convenço de que tudo bem, alguns golinhos não me farão mal nessa quinta-feira cinza e fria.

Antes de beber, sinto o cheiro entrando pelas narinas e descendo pela garganta: quase se aconchega no estômago. Olho pro preto brilhante e imagino-o quente no estômago vazio. Encosto os lábios pintados de vermelho, já prevendo a marca que ficará na borda, e viro devagar o copo, pro líquido cair docemente na boca. Então paro. Não posso acreditar que o café está adoçado.

Nunca bebo café adoçado. Pelo menos não nos últimos quatro anos. Recuso qualquer café doce. É quase uma afronta, um xingamento, um pecado. Mas o café continua bonito, quente, me encarando. E minha mente deduz que talvez ele faça as olheiras sumirem, embora eu saiba que é mentira.

Penso em como somos obrigados a engolir tanta merda na vida pra continuar sobrevivendo. Respiramos, contamos até 10 e engolimos rapidamente e com força, pra quase fazer de conta que não foi preciso engolir, que aquilo não aconteceu. Olho de novo o café e penso que posso fazer o mesmo. A metáfora funciona da mesma forma. Respiro, conto até 10, e bebo tudo em um gole só.

Não consigo deixar de pensar em você. E em como não te ver sem respirar me faz acreditar que você ainda existe (e vive sim, vive em mim, vive nessa lacuna que se abriu em dezembro). Dói mais essa dor que é da tua mãe do que a dor que ficou depois que te vi pela última vez. Dói esse silêncio que ficou no Messenger depois da última mensagem que te enviei perguntando se estava tudo bem, sem saber que você já não poderia responder. Dói esse nó na garganta, essas fotos que nos mostram jovens e vivos. Vivo. É isso: sigo vivendo. Que grande ironia. E seu corpo vai sumindo, sumindo, até virar pó. Te penso nessa realidade mórbida do corpo-físico-presente. Eu sei, você não era um corpo. Mas era através dele que eu te via, que te ouvia, que te sentia.

Sua mãe disse que você havia dito que amava todos.
O que será que você pensou antes de fechar os olhos?

Rita

Ele tinha olhos azuis bem profundos, mas escondia essa profundeza com uma risada grave e piadas de cunho sexual. Lembro da primeira vez que me levaram naquele bar. Ficava nos fundos de um estacionamento, perto da faculdade. Não sei nem se naquela época poderia ser considerado um bar: tinha só uma mesa de plástico meio velha com três cadeiras, e ao lado uma mesa de sinuca. A luz era bem fraca, o que me deixou confortável. Pela primeira vez eu ficava confortável em um local com pessoas que não conhecia.

Nunca mais deixei de ir pra lá. Toda noite, após a aula – ou no lugar da aula – caminhava religiosamente até o bar, pedia uma cerveja para ele, trocávamos umas poucas palavras, eu sentava e sobrevivia à noite. Chamavam o bar de “Rita”. Rita era a ex-mulher dele. Não sei se chegaram a viver juntos naquele quartinho que existia ao fundo do estacionamento, mas eu gostava de imaginar que sim. Era um quarto pequeno, com um colchão de casal em um piso de lajotas já manchadas. Do lado da quase-cama, havia um banquinho de plástico com umas poucas roupas em cima. Costumava pensar nela como uma mulher morena, de uns 45 anos, voz rouca como a dele, cabelo sempre preso num rabo de cavalo, cigarro à boca, corpo bem mais magro do que o magro habitual. Nunca me interessou saber por que haviam rompido, embora eu acredite que tenha sido culpa dela.

Alemão vendia cervejas a um preço ridículo. Eu ficava bêbada com 8 reais. De repente, provavelmente por causa do preço da cerveja, já não eram mais uma mesa, três cadeiras e o chão de brita. De um ano pro outro, fizeram um piso de concreto, espalharam mais mesas de plástico, cadeiras e instalaram uma jukebox. Quando eu matava aula e o bar estava relativamente vazio, punha umas fichas na máquina e umas músicas nostálgicas. Não me importava que dia da semana era, nem o mês ou o ano. Não me importava com a ressaca do dia seguinte, com o trabalho do dia seguinte ou se perderia o último trem da noite. Às vezes ignorava as pessoas que estavam comigo, e me fechava em mim, o gato do bar no meu colo, a cerveja barata e gelada aquecendo o estômago vazio.

Foi o primeiro e único lugar em que eu realmente me senti pertencente, em que realmente algo fazia sentido – justamente porque era lá que nada fazia sentido. Eu me sentia bem mesmo nas sextas, quando o lugar estava tão lotado que as pessoas se acumulavam de pé ao redor das mesas, ou se encostavam na parede para fumar. Era como se o peso do dia deixasse meu corpo e me desse qualquer tipo de força que me fizesse aguentar o trabalho chato, as noites insones, a falta de dinheiro. Era a minha única fuga real possível. Os assuntos que surgiam naquelas mesas de plástico me pareciam mais relevantes à vida do que aquilo que ouvia na sala de aula: teorias filosóficas, filmes, livros, fotografia e aquele misto de sentimentalismo exposto sem pudor, entre uma e outra ida ao banheiro com a porta quebrada. 

Não me lembro quantos anos passei indo lá todas as semanas. Não lembro quantas cervejas bebi esperando que o líquido aliviasse o que me arrasava por dentro. Não lembro quanta gente conheci sem querer, quantas conversas tive, quantos cigarros fumei, quantas vontades senti, quantos desabafos ouvi, mas lembro de como me sentia: um misto de alívio, paz e expectativa. Foi lá que eu bebi depois de apresentar meu trabalho de conclusão da faculdade. Foi lá que eu me despedi da faculdade. E a minha música de formatura se chamava “Rita”. Tudo começou e acabou com Rita, embora eu nunca a tenha conhecido.